quinta-feira, 11 de junho de 2015

Conto um conto pra vocês, BOCA Vermelha, este conto esta em meu livro Bangalô de Histórias, contos e poesias



                                                   BOCA VERMELHA.
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       Desenhos espalhados no chão, tintas derramadas, pincel caído, e em um tripé tampado com um pano branco, fiquei por um bom tempo olhando e imaginando que pintura estaria ali, não queria ser atrevida; mas a curiosidade me dominou; fui abrindo lentamente aquele pano, de baixo para cima, e deparei com uma bela pintura, em uma tela de mais ou menos dois metros de altura por um metro de largura.
O desenho, uma bela BOCA vermelha, da cor da paixão. Fiquei um bom tempo ali, enfrente a tela, imaginado, e me perguntando como alguém teve a idéia de pintar uma BOCA, só uma BOCA, em uma tela tão grande! Na sala uma pequena varanda cheia de poeira, mas com vista de tal beleza que parecia imaginaria de onde se via toda a cidade e um bosque na beira de um lago,  com uma rua estreita, mas que as pessoas iam e vinha sem parar.
Passando os olhos no local vi um casal sentado de um modo estranhamente, estranho, eles estavam sentados de costa e bem calados,estavam praticamente imóveis, pensei, devem estar descansando, estavam de costas bem coladas uma na do outro, mas Dirrepente! Levantaram-se e saíram um pra cada lado, sem se falarem e sem nem mesmo se despedirem.
Como não entendi nada, sacode a cabeça, balancei os ombros com sinais de duvidas e sai dali, desci uma pequena escada, encontrei uma cozinha com uma pia cheia de copos sujos, chão com sexto de lixo caído e o lixo todo espalhado. Olhei para minha direita e vi um grande e belo quarto, com uma bela cama de casal. Ai sim é que vi desordem total, não entendi nada; mas imaginei alguém saiu daqui, ou às pressas, ou muito triste! Sem pensar; comecei a arrumar a cama, peguei a manta que estava embolada e forrei a cama.  
      Cansei de tanto me abaixar para pegar roupas e colocar na cesta, sapatos e sapatos jogados, nem sei o que me deu na teia, mas arrumei todo o dormitório, o que custou umas duas horas de meu precioso tempo. Fui para cozinha e lavei todos os copos, limpei o fogão, tampei e coloquei os copos limpos em cima da tampa.
Voltei para sala e peguei os papeis e os guardei em uma gaveta de uma escrivaninha, sentei-me em uma poltrona de couro marrom defronte a pintura, estava me sentido a vontade, como se ali fosse; minha casa, admirando-a acabei cochilando, encostei-me no braço do  sofá e dormi, dormi um sono  calmo, como a muito tempo não dormia. Acordei já era noite, sai correndo para casa, afinal havia ido ali para ver um emprego, anuncio de um jornal, e Quando cheguei à porta, havia um pequeno aviso.  Entre sem bater! Assim-o fiz! No outro dia voltei, e voltei Por vários e vários dias, sem nem um sinal de haver passado alguém por ali.
Sempre que estava com poeira eu limpava, acabei deixando aquele apartamento em total organização. O prédio era pequeno, velho, sem porteiro e nem o portão fechava, tornando com isto minha entrada livre. Arrumei um emprego, mas em todo o final de tarde ia lá, nem que seja só para dar uma olhadinha, principalmente na tela. Não me cansava de olhar os detalhes daquela pintura.
Por passar horas e horas naquele lugar, tomei a liberdade de fazer café e às vezes  me preparar algum lanche, era até bom assim tinha o que fazer, e deixava o apartamento com vida. Também ficava uma boa parte do tempo apreciando a bela vista da sacada, e até me esquecia de lavar a cafeteira e os copos. Mas quando chegava no dia seguinte cuidava de tudo. Fui ficando tão a vontade que até tirava uns sonecas naquela macia cama, há eu lavei todas as roupas, passei e as guardei, eram tantas as coisas de luxo que havia naquele pequeno e simples apartamento que eu nada entendia!
Um dia cheguei como de costume, fui olhar a tela e pregado com um alfinete no pano que a cobria, estava um envelope dentro continha um bilhete que dizia: ai esta seu pagamento.
Com aquele envelope nas mãos tremulas! Pensei meu Deus! Como isto veio parar aqui se eu nunca vi ninguém por aqui, não sabia se tinha medo ou pavor, só sei que estava muito assustada! Fiquei parada, sem ação por alguns instantes, mas logo dei por mim que deveria sair dali logo, e sem levar aquele dinheiro, pois não, ele não era meu, voltei para o lado da poltrona marrom e o coloquei lá em cima.
Fui  andando cuidadosamente para o rumo da porta, quando ouvi uma voz, me perguntando; você não vai trabalhar hoje?  Quase cai de tanto susto! Olhei para traz, e veio um jovem sorrindo e me dizendo: pode se acalmar que eu não sou alma perdida, sou de carne e osso, e estou bem vivo, pode pegar para você ver. Convidou-me a se sentar e eu sem nem um argumento contrario, me sentei. Ele me explicou que era um pintor e que estava fazendo muito sucesso com sua boca vermelha; Disse ainda que vendia de cinco a seis telas por semana e que pintava uma por dia, e por isto todos os dias eu via a tela no mesmo lugar. Mas que na verdade era outra sempre.
Também que muitas vezes a cafeteira e os copos sujos não eram eu que os tinha deixado, e sim ele, disse também que gostou da brincadeira e por isto sempre deixava tudo bem organizado, para eu não perceber que ele havia ido lá. Disse também que durante o mês sofreu e aprendeu muito tendo que ser organizado e cuidadoso como eu. Assim  acertamos e eu segui com minha rotina. Indo todos os dias lá e fazendo toda a arrumação. Só que eu já sabia que tinha um patrão e por isto tomava mais cuidado com tudo que fazia, mas continuava com a preocupação e nada entendia, vivia me perguntando, como alguém só pinta BOCA?  Minha rotina continuava; chegava e já ia correndo ver a tela, e a tal boca, já nem achando mais graça, mais olhava assim mesmo todos os dias. Ele eu nunca via, mas já percebia que o havia estado ali.
Sentindo-me como se esta fosse minha casa. Passei a chegar bem cedo e só ir embora bem de tardinha, ficava olhando a bela vista, as pessoas passarem, as crianças brincando, nos poucos brinquedos que havia no bosque, os pássaros fazendo suas fantásticas acrobacias, e assim me divertia tanto que nem o tempo passar eu via. Esperava o pôr do sol por detrás das árvores só pelo prazer em ver as cores do amarelado do sol se misturar com o verde das árvores, também seus raios sobre as águas eram de encantar qualquer olhar.
Assim o tempo foi passando e eu seguindo com minha rotina, às vezes imaginava, deve ser graça de DEUS, eu ter encontrado um trabalho bom assim, e ainda ganhar bem como ganho, isto deve ser um presente que mereci. Um dia; acabei acordando mais tarde, mas também isto nem seria problema, não tinha nada pra fazer mesmo. Sai andando lentamente rumo à padaria onde todo o dia passava, pra lanchar ou um lanchinho levar.
Entrei, comprei e segui... Chegando, levei um susto! Alguém, que não sei quem, havia lavado todos os corredores e escadas. Pensei; que bom; até o cheiro mudou! Subi com um pensamento, hoje vou lavar as janelas, assim completo a limpeza que começaram.
Logo no primeiro degrau encontrei um senhor, que disse; bom dia, respondi; bom dia! Ele seguiu hoje o dia esta lindo! Não é moça. Olhei para os lados e para o lado do lago, vi que realmente o dia estava belo, respondi que sim, e subi. No segundo degrau, encontrei uma moça, que me disse bom dia; respondi; bom dia, ela diz; Deus lhe dê muita sorte! Nada entendi, mas fiquei assustada! Meu deus! Nunca vi ninguém por aqui neste horário e muito pior me cumprimentando e até me desejando boa sorte, eu em! Em meio a tantos absurdos, segui, e cheguei a porta, olhei, tudo estava igual, ainda bem, pensei em voz alta.
Está como sempre, estava todo o tempo aberta, levei a mão na maçaneta para abrir, estava trancada, me entristeci; afinal eu nunca tive chave, e nem precisava, a porta estava sempre aberta, pensei; e agora, será que tudo acabou ele vendeu o apartamento e se mudou, sem nem mesmo me avisar.
Só pode ter feito isto, este moço é todo cheio dos mistérios, mas vou tocar a campanhinha; vi aquelas pessoas saindo, deve ser daqui, e com certeza deve ter mais alguém na casa, e deve me dar alguma explicação. Apertei-a, mas como nunca havia a apertado, não sabia! Ela não funcionava então só me restava bater na porta, mas estava muito pensativa, e até minhas atitudes falharam, sentei no degrau da calçada, coloquei as mãos no rosto, pensando e agora? Já sentia saudade da pintura, ou seja, daquela boca, e aquele jovem pintor, que só vi uma vez, parece que sentia sua falta, mas falta como? Se só há vi uma vez, meu Deus! Estou é ficando louca, como sentir falta de algo que nunca tive, mas sentia a perca, naquele momento senti que eu estava era apaixonada por aquele homem, falava pra mim mesma, mas como? Deve ser do meu imaginário, acho que tudo isto aqui é um sonho! Assim meio atordoada, levantei e tomei coragem; bati na porta, sem demora ela se abriu, eu tremia tanto que nada via, e nem ouvia, desesperada! Perguntei quem esta morando aqui?
E só ouvi a resposta; CALMA, tudo esta em ordem, só fechei a porta pra te fazer uma surpresa, mas entre e veja...
Quando entrei fiquei mais uma vez sem nada entender a sala estava decorada com muitas, e muitas rosas, vermelhas; tinha pétalas por todo o chão. Vasos com rosas, rosas penduradas, enfim rosas por todos os cantos, nem espaço para andar tinha, o único espaço bem no meio da sala, estava ocupado por um dos quadros da BOCA VERMELHA, fiquei assustada, pensei muito rápido, este cara é louco! E agora o que faço? Meus sentimentos se misturaram entre pavor e paixão! Mas ele percebendo meu desespero, começou logo a falar, não se preocupe, eu não sou doido, sou um jovem de família classe media alta, estudante e nem pintor eu era, só comecei a pintar depois de um sonho, e este sonho me mandou pintar esta BOCA e ainda me dizia: esta BOCA te dará fortuna e felicidade! No sonho vi direitinho este prédio e este apartamento. Por isto estou aqui, a BOCA eu sempre pintei e nunca errei, nem se quer um detalhe, também não tinha como, se todos os dias ela aparecia em meus belos sonhos, e só aquele dia que te vi, descobri que a minha BOCA era a sua BOCA! Fiquei Por uns instantes, ali parada, mas ele não esperou muito, passou-me o batom da cor da pintura, mostrou-me o espelho, e me disse:  agora você entendeu; que eu para viver  e para ser feliz eu só preciso de sua BOCA, naquele momento entendi todos os mistérios que havia entre nós! Dei mais uma olhada para aquela tela, ele pegou em meu rosto, olhou para minha BOCA e só disse: é realmente linda!  Sem pensar em mais nada, em meio aquelas rosa vermelhas, cujo perfume inalava todo ambiente, nus beijamos loucamente! Apaixonadamente!                                 



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